
SOS, Boris Yelnikov apossou-se de mim e recusa-se a desamparar a loja! EXORCISMO please! Com a máxima urgência.
"Mas, neste local, neste momento, a humanidade somos nós, quer nos agrade ou não. Aproveitemos antes que seja tarde." [Samuel Beckett, "À Espera de Godot"]

Bright Star é belo. Aproxima-se de uma ideia de perfeição estética ingénua e idílica, o género de filme que a minha mãe havia de gostar. Tudo é sereno, as mulheres todas muito delicadas e femininas, as cores são todas suaves, os vestidos perfeitos como numa pintura, a música encantadora, os rostos bastante imperturbáveis, e mesmo perante a adversidade o sofrimento é elegante, recatado, contido. A realização está nesta sintonia – não arrisca nada. É compreensível que se sinta que este é um filme sem sal, pouco mais que poesia, mas não num sentido propriamente lisongeiro. Aquela poesia que pouco mais é que uma demanda daquilo que, numa perspectiva tradicional e conservadora, se considera ser a beleza. Falta ao filme fogo, carne. Porque se trata aqui do primeiro amor e o primeiro amor é também desvario, intensidade, coisa que queima, que desalinha, e isso também faz parte da sua poesia. Aquilo que falta a Bright Star é o lado negro, animal, instintivo e pouco óbvio que fez de O Piano uma obra-prima. Apesar de tudo este não é filme para se menosprezar. Existe um cruzamento com a literatura – a poesia de John Keats - que é interessante e que impregna toda a película. Por outro lado, e apesar de a interpretação de Abbie Cornish deixar a desejar nas partes mais exigentes a nível dramático (veja-se a cena final), ela consegue fazer-nos lembrar o que é sentir aquela ansiedade obsessiva por alguém, o que é não haver mais mundo para além da pessoa que se ama e isso parece-me um grande mérito do filme. Bright Star é todo primavera e sensibilidade: não é improvável que, quem esteja nesse mood, saia da sala de cinema comovido.




