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Segunda-feira, 19 de Março de 2012

Espinha dorsal

Afastada a poeira consigo agora ver mais claro. Vim para aqui para, entre outras coisas, conseguir escrever. A escrita vive connosco como uma condição – que se pode exercitar e desenvolver, é certo – mas ainda assim como coisa que nos é profunda e intrínseca, e talvez das poucas sem prazo de validade, como adubo em compostagem. Continuo ser saber o que seja ser-se um escritor (quando crescer quero serpintora ou escritora, como se a vida se fizesse de tudo ou nada, como se uma coisa excluísse a outra, como se não fosse tudo uma gigante “interdisciplinaridade”) como não sei o que seja ser-se médico, contabilista ou engenheiro. Mas sei que tenho de escrever. Ou às vezes nem sei nada mas escrevo, como uma cabra cega a cabecear no escuro. Escrevo para ser pessoa e para ser pessoa às vezes também preciso de dar uma casa às palavras. Uma imagem, um palco ou um livro. Vezes há em que as palavras decorrem da casa. Ou não vêm de todo. Para escrever também é preciso não-escrever. Escrever, para mim, não chega é um facto mas consegue ser quase tudo. As palavras. Penso que começo, entretanto, a encontrar uma espinha dorsal a tudo isto. Aquilo que sempre me interessou foram as palavras, por um lado, e a criação, por outro. E às vezes tudo misturado.
Não dou nem mais um passo sem descobrir o resto – aquilo – que ainda me é necessário descobrir sobre mim própria.

Sexta-feira, 16 de Março de 2012

...and i'm quoting

"Se tenta escapar, de nada lhe adianta, porém, cruzar os mares todos sem cruzar, antes, a monotonia de si mesmo, nem conquistar cidades menos perfeitas do que aquelas que seja capaz de imaginar sózinho."

Manuel Jorge Marmelo
Uma mentira mil vezes repetida

Quinta-feira, 15 de Março de 2012

não é costume, mas há dias

Dias nervosos assim, mãos torcidas um novelo olhar perdido a consciência a rodopiar lá longe observas as mãos as unhas desarranjadas mordes mais uma, coças o pescoço. Olhas a janela, hesitas. Hesitas.

Correr comer um chocolate enfiar-te numa sala de cinema nadar cantar por que não gritar se ninguém compreenderia. Possibilidades.

Retomas. Qual era a prioridade afinal...? Paras e comes o chocolate comes dois comes mais do que devias a tentar sufocar as angústias com açúcar e gorduras trans. Procuras nervosamente uma música triste que te console mas as do costume perderam a eficácia.

Pensa pensa PENSA. Organiza-te vá. Prioridades. A sério, assim não.

Multiplicas-te em explicações pode ser disto pode ser daquilo mas nada suficientemente convincente. E no entanto é preciso manter a motivação perseverar fazer do dia um novo dia todos os dias.

Não quero quebrar não quero quebrar mais nenhuma vez que estupidez não vais quebrar.

Recorda-te da frase A FRASE como é que era?

Beber uma cerveja é isso se apanhasses uma bebedeira e ensaiasses um ar decadente num bar qualquer [mas será que nunca vão parar de te ocorrer pensamentos de 18-year-old-girl, que aborrecimento]

Porquê hoje está tudo tão bem sabes que isto é estúpido não sabes.

Ah, já me lembro. Fear doesn't lead us anywhere. Courage is a seed that grows (persistance). Keep going. 

Fear doesn't lead us anywhere. Courage is a seed that grows (persistance). Keep going.
Faz sentido claro que faz mas o problema não é esse. Hoje é um não se diz qualquer não tens que perceber tudo.

E também tens que perceber que não é fácil o trabalho todos os dias demanding já conseguiste tanto todos os dias great accomplishments. Concretizaste estás a concretizar tudo algum dia tinham que vir os dias do meio os que custam mais porque parece que não vais a lado nenhum. Presa não posso sentir-me presa não estás presa repara olha do exterior. É temporário estás a ir é o que interessa e a vida muda em menos de uma ai quando deres por isso. Positiva, não é como antigamente, é como os cães quando experimentam sangue o sabor fica e vão sempre em busca dele. Tu sabes a extensão da tua mudança.

Por isso. On the road, Jack Kerouac. Nas mãos como um tesouro conheces tão bem a sensação a capa a encerrar um mistério por desvendar parece-te simbólico. Transformações. On the road. Comes mais um chocolate (o último do dia), deitas-te na cama, lês, adormeces cedo. Sabes que não vais ficar para sempre no mesmo lugar.

Quarta-feira, 14 de Março de 2012

Choques culturais

A minha roommate pergunta-me "tens alguma espécie de compulsão pela limpeza?"

Ando a domesticar o meu lado evil e digo-lhe apenas "não, não tenho".

E ela volta à carga "é que eu acho que tens um bocadinho".

E eu penso em coisas como a minha cama geralmente por fazer, na imundície geral do nosso wc e do frigorífico, do fogão sujo e disse-lhe "acredita, eu sei do que eu estou a falar".

"Mas tens essa necessidade de estar constantemente a limpar, não tens?"

Respiro fundo. "Não. Tu achas que eu ando constantemente a limpar?"

"Sim."

"Eu não ando constantemente a limpar, faço-o apenas uma vez por semana, no dia da minha folga. Eu sei que, se o não fizer nesse dia, não vou ter tempo durante o resto da semana e eu gosto de viver num sítio limpo. Se reparares, fi-lo na quinta-feira passada, que foi quando folguei, e aproveitei agora para tratar da sala."

"É que eu já tive essa compulsão há uns anos atrás, sabes? E revi-me em ti agora. É que eu falei de fazermos Yoga juntas e tu, de imediato, começaste a limpar."

"Pois. É que nós vamos fazer Yoga no chão a nossa sala, e ele não está propriamente limpo."

"Mas não está assim tão sujo."

"Pois, mas quando as pessoas fazem Yoga é suposto que o façam numa sala limpa e harmoniosa, não suja e desorganizada."

"Se fizéssemos Yoga neste chão sujo como te sentirias? Serias capaz de o fazer?"

E nesta altura começo sentir-me no divã de um psicólogo barato.

"Sim, seria. Mas para mim não faria muito sentido. E não me sentiria tão bem quanto se o chão estivesse limpo. É que nós não vivemos numa casa onde os sapatos são deixados à porta. Andamos com os nossos sapatos da rua por todo o lado. Ora se eu vou deitar-me no chão da sala gostaria que ele estivesse limpo."

"Mas sabes que a meditação tem a ver com libertares-te de todas as preocupações, incluindo essa. Também podes fazer meditação numa praia ou no campo."

Ok, choque cultural. Mas estou orgulhosa da minha paciência. E se tivesse sido eu a começar a conversa com um "noto em ti uma certa tendência para a falta de higiene", como seria?

Terça-feira, 13 de Março de 2012

Assuntos acerca dos quais você deve falar (e insistir) se me quer aborrecer e, quiçá, enervar, infinitamente:

- A felicidade que é comemorar-se um dia da mulher (e de como isso é tão importante para a nossa espécie);

- De como os franceses são porcos e arrogantes, os pretos uns incivilizados com tendência para a marginalidade e os ciganos uns ciganos e de como toda esta gente anda para aí a roubar-nos os empregos e os rendimentos mínimos desta vida (os franceses não, claro);

- Debater acerca de touradas e do direito dos aficcionados à tradição;

- Falar acerca da cadeia alimentar e do quanto ela é importante e imutável;

- Falar de quanto é importante comer carne e das carências nutricionais dos vegetarianos;

- Falar do amoroso que é o pássaro que se tem enfiado numa gaiola lá em casa;

- Dissertar sobre a temática: já sofri muito na vida;
- Discorrer sobre as virtudes do liberalismo económico e sobre a falência dos estados sociais;

- Perguntar, acerca da minha vinda para Amesterdão: está muito frio?, a língua é muito difícil?;

- Insultar os políticos portugueses em quem se votou, dizendo deles que são todos uns ladrões e uns estafermos e por conseguinte que não há esperança para o país porque os portugueses são todos uns chico-espertos inaptos e incapazes de produzir;
- Falar sobre emigração nestes termos: ah, se não fosse o meu filho/a minha tia-avó/a unha que tenho encravada no pé esquerdo eu também já não estava aqui;

- E falar acerca do facto de já se ter comprado imensos nenucos e barbies e roupa cor-de-rosa para a criança que vai nascer porque é uma menina  (que vai para o ballet mal celebre 5 anos).

Segunda-feira, 12 de Março de 2012

Watching life

Gosto de estar "a trabalhar" à janela da biblioteca do meu bairro e de, quando olho adiante, sorrir às pessoas que passam. E gosto muito quando me sorriem de volta.

O meu blogue não é um diário nem nada que se pareça

I.
Estou na esplanada da coffee company de Javaplein, pertinho de minha casa, são 9h da manhã do meu dia de folga e está um sol, um sol que eu apelidaria de português, uma pequena brasa, e eu que já não vislumbrava uma nesga deste sol pelo menos há 3 meses, sinto-me uma pequena planta sugadora e conto repôr hoje os níveis de serotonina TODOS. Acalento ainda uma certa esperança de não ter que recorrer ao solário no próximo ano. Um dos meus 2 amigos portugueses é frequentador da coisa e diz que na Holanda não há como evitá-lo mas para mim essa ideia permanece ainda completamente no outro lado da força. Alguém falar com toda a naturalidade de uma ída ao solário é para mim pouco menos que uma bizarria. Mas temo que o desespero possa bem vir a apoderar-se deste corpo frívolo com mais rapidez do que qualquer poderia supôr.
II.
O segundo jantar Port-Trinee em minha (nossa) casa, este sábado, foi novamente digno de registo. Não tivesse eu perdido a minha máquina fotográfica numa guerra de bolas de neve e iries ver a qualidade das iguarias com que a nossa mesa foi presenteada. A dedicação que as pessoas põem naquilo que trazem é mesmo bonita - desde bebida de todas as espécies, a comida vegetariana, passando por flores, houve de tudo. Foi uma coisa mais pacata, com 16 pessoas, dada uma súbita indisponibilidade da minha roomate e respectiva tribo, e precisamente por isso o serão prestou-se a um convívio mais próximo (convívio - adoro esta palavra). E de novo o contentamento das pessoas em estarem ali, em conhecerem gente nova, a vontade de voltar. Para o próximo mês terei amigos portugueses de visita, o que vai ser ainda mais especial (tão lamechas, credo). Alguém, aí desse lado, se junta?
III.
Já experimentei sair à noite depois do jantar de sábado mas pela mesma razão pela qual acordo às 8h da manhã em dias de folga, senti-me um bebé, fumador e birrento, a cabecear à toa no meio de gente em polvorosa. Como boa portuguesa, bem estabelecida no rótulo de party animal: não foi bonito.

IV.
Do segundo jantar, o encontro com uma actor argentino: "I don't know where I'm going but I know I'm in the right way. Keep focused". É tão bom vermo-nos ao espelho às vezes.

V.
Ia a publicar o post mas olho para o lado e vejo um holandês (sim, alguns são engraçados, tia, para quem gosta de louros espadaúdos com ar indie) com uma caraça de auto-bronzeador na cara e decido imediatamente que talvez o solário não seja uma solução assim tão má.

Domingo, 11 de Março de 2012

Notas soltas

I.
Sempre que digo aos meus amigos aqui de Ams que "i've became an aunt", recebo caras atónitas ou espavoridas e vejo-me obrigada a esclarecer: "no, not a none, an aunt" (fazendo um esforço para não pronunciar o "u" para que ninguém se confunda). A cara de alívio que a seguir as pessoas me dirigem é soberba.

II.
A propósito, diz que sobrinha é parecida com tia. E diz que tia não conseguia dormir à hora a que a menina estava a nascer e - tolinha - não sabia porquê. E diz que prenda da tia pelo nascimento de sobrinha é nada mais nada menos que um globo terrestre. Porque tia está a fazer figas para que sobrinha tenha dentro dela aquela sede, aquela fome, e venha a ter vontade de descobrir umas maravilhas da natureza, literalmente. Com a tia, naturalmente.

[após este singelo momento facebook, a emissão prossegue normalmente dentro de momentos]

III.
A forma como as pessoas se cumprimentam em Ams é muito singular. E porquê? Quando saúdas ou te despedes de um holandês dás um simples aperto de mão, independentemente do visado ser homem ou mulher (igualdade, aleluia!). Isto facilita muita coisa. Mas depois, quando estás entre amigos, e se há holandeses pelo meio, cumprimentas as pessoas não com um, não com dois, mas com três beijos. Imagina teres 20 pessoas para beijar. Mas depois há os expats (os que sendo oriundos de outros países, vivem cá, como é o meu caso), que são quase toda a gente com quem me relaciono. Ora, entre expats, as facilidade com que as pessoas se abraçam é formidável. A sério, ao segundo encontro já te dão um abraço como se fosses um amigo de sempre. Ainda me estou a habituar a isto, há que confessar. Nas situações em que tiveste uma empatia porreira e imediata com a pessoa, sabe bem, mas nas outras é apenas ackward. E ontem dei-me conta que quando me despeço de alguns dos meus male friends, há sempre um momento em que se me atravessa um receio agudo de que em vez de um abraço vá levar um beijo na boca. Não me perguntem porquê, tem a ver com a energia das pessoas. Sem dúvida, é uma cidade muito... intensa, vá. Uma pessoa tem que andar, digamos, focada, se não quiser resvalar para o ambiente sex drugs and rock'n'roll.

Sábado, 10 de Março de 2012

Imaginação

Quanto à minha vida em Amesterdão, eis as únicas duas coisas que toda a gente está interessada em saber: está muito frio, não está? e a língua é muito difícil? E a mim a apetecer-me responder: não andamos lá muito abonados em imaginação, pois não?

No outro dia, a minha tia que posta música indie e cenas vintage no Facebook também me perguntou esta pérola: e as pessoas, achas bonitas?

[se estiveres a ler isto - é só a brincar hein? ou então era a fingir]

Sexta-feira, 9 de Março de 2012

Tão mais simples

Sei que vou andar a suspirar pela praia mas por ora não me importo com as descrições das delícias do verão lá longe.

Sempre fui do tipo de pessoa que não passa sem praia, que em Abril já anda a ver se põe os coutos na areia, e que diz que devia ser Verão o ano inteiro e que fala em depressão se passa muito tempo longe do sol e que não consegue ver-se ao espelho entre Novembro e Maio dada a palidez fantasmagórica do tom de pele e que só se sente atraída por latinos de pele tostada.

Mas por que haveria eu de escolher vir viver para um determinado país para depois passar o tempo a queixar-me da falta de sol? Porventura pensaria eu que vinha viver para uma ilha no Mediterrâneo? É claro que seria tremendamente mais interessante se a Holanda fosse um país solarengo e quente, se tivesse praias dignas desse nome e pôres-do-sol flamejantes como os nossos. Mas os países, tal como as pessoas e as coisas, não são perfeitos. O que sinto é gratidão por esta terra me permitir subsistir autonomamente e sem ajudas parentais, por me permitir poupar dinheiro e viver com dignidade, poder ajudar a família se necessário fõr e poder sonhar com um futuro decente. É muito injusto passarmos o tempo a queixar-nos do país que nos acolheu como emigrantes, em pé de igualdade com os nativos. Mesmos deveres, mesmos direitos. E sim, os impostos são muito altos. E não, a língua não é assim TÃO difícil. E se tudo se resumisse ao tempo frio e à língua difícil o mundo seria um lugar tão mais simples.

Carta de apresentação

Comecei por dançar flamenco. Depois formei-me em teatro. Trabalhei profissionalmente em teatro mas também em cinema e em sushi (não sem ter experimentado o call-center). Tirei um curso profissional de jornalismo. Ultimamente tenho-me dedicado à moda. Vivi e trabalhei em vários cantos do país e agora vivo fora dele (I amsterdam). Dos mil-e-um-interesses, vou-me focando a par e passo no que mais me realiza (embora goste de me perder por aí). "Os de sempre" continuarão a acompanhar-me nesta jornada e, quiçá, companheiros novos também. Este blogue serve-me para arrumar a cabeça e comunicar com pessoas de quem gosto.



[Se quiserem contactar-me, podem fazê-lo para este e-mail:

asiul.snitram@gmail.com]



Aviso à navegação

Parecendo que não isto dá-me trabalho. Peço o respeito que se deve quando se está em casa alheia. O blogue é público mas por paradoxal que seja, é íntimo, e é meu. Por isso os meus posts podem ser reproduzidos mas sempre com o respectivo link. Obrigada.

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