A minha roommate pergunta-me "tens alguma espécie de compulsão pela limpeza?"
Ando a domesticar o meu lado evil e digo-lhe apenas "não, não tenho".
E ela volta à carga "é que eu acho que tens um bocadinho".
E eu penso em coisas como a minha cama geralmente por fazer, na imundície geral do nosso wc e do frigorífico, do fogão sujo e disse-lhe "acredita, eu sei do que eu estou a falar".
"Mas tens essa necessidade de estar constantemente a limpar, não tens?"
Respiro fundo. "Não. Tu achas que eu ando constantemente a limpar?"
"Sim."
"Eu não ando constantemente a limpar, faço-o apenas uma vez por semana, no dia da minha folga. Eu sei que, se o não fizer nesse dia, não vou ter tempo durante o resto da semana e eu gosto de viver num sítio limpo. Se reparares, fi-lo na quinta-feira passada, que foi quando folguei, e aproveitei agora para tratar da sala."
"É que eu já tive essa compulsão há uns anos atrás, sabes? E revi-me em ti agora. É que eu falei de fazermos Yoga juntas e tu, de imediato, começaste a limpar."
"Pois. É que nós vamos fazer Yoga no chão a nossa sala, e ele não está propriamente limpo."
"Mas não está assim tão sujo."
"Pois, mas quando as pessoas fazem Yoga é suposto que o façam numa sala limpa e harmoniosa, não suja e desorganizada."
"Se fizéssemos Yoga neste chão sujo como te sentirias? Serias capaz de o fazer?"
E nesta altura começo sentir-me no divã de um psicólogo barato.
"Sim, seria. Mas para mim não faria muito sentido. E não me sentiria tão bem quanto se o chão estivesse limpo. É que nós não vivemos numa casa onde os sapatos são deixados à porta. Andamos com os nossos sapatos da rua por todo o lado. Ora se eu vou deitar-me no chão da sala gostaria que ele estivesse limpo."
"Mas sabes que a meditação tem a ver com libertares-te de todas as preocupações, incluindo essa. Também podes fazer meditação numa praia ou no campo."
Ok, choque cultural. Mas estou orgulhosa da minha paciência. E se tivesse sido eu a começar a conversa com um "noto em ti uma certa tendência para a falta de higiene", como seria?