A mais alta labareda

"Mas, neste local, neste momento, a humanidade somos nós, quer nos agrade ou não. Aproveitemos antes que seja tarde." [Samuel Beckett, "À Espera de Godot"]

terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010

Alerta


SOS, Boris Yelnikov apossou-se de mim e recusa-se a desamparar a loja! EXORCISMO please! Com a máxima urgência.

quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

Haitis há muitos

Já não posso ouvir falar em Haiti. Por muito que a tragédia me comova, por muito que não haja palavras que descrevam o que se passou e está a passar no país, e apesar de ter lá um amigo médico a socorrer as pessoas (espero que esteja a ser possível fazer alguma coisa). De repente toda a gente decidiu fazer donativos e todos apelam aos outros que façam o mesmo, o que eu acho muito bem. Mas caramba são precisas bombas sensacionalistas para que as pessoas todas decidam tentar redimir-se da sua apatia e, curiosamente, logo todas com a mesma causa. Ainda por cima quando o principal problema no Haiti, neste momento, não é o dinheiro ou a falta dele. Não se consegue chegar às pessoas sequer, entrar em certas zonas do país. E perante isto, perdoem-me, mas o dinheiro não serve de nada. Haitis há muitos, infelizmente, em diferentes pontos do globo e de diferentes escalas e configurações. Não quero com isto menorizar a catástrofe em causa e o sofrimento que lhe está implícito, não é disso que se trata. Custa-me, sim, porque há tanta coisa a fazer à nossa volta, tanta gente, tantas causas a precisar do nosso empenho mas isso não comove ninguém. O que comove é a caixinha mágica, é o espectáculo mediático, a tragédia em directo. O que não aparece na caixinha não tem direito de antena nas nossas vidas. Julgo que seria mais eficaz pôr mãos à obra e dedicarmos umas horinhas por semana a fazer voluntariado num sítio qualquer. Nem que seja a fazer companhia a uma vizinha velhota que precise. É a nossa presença que ajuda e resolve coisas, é a proximidade, a atenção, o afecto. É o nosso tempo, a nossa voz, uma palavra. Ainda não podemos teletransportar-nos por isso é impossível irmos todos recambiados para o Haiti e, mesmo que pudéssemos, tendo em conta a onda de solidariedade actual, não cabíamos lá todos. Distribuamos então as nossas atenções. Do outro lado do mundo não podemos muito mas aqui sim. Aqui podemos muito. Há um post brilhante sobre este assunto a ler aqui. Eu não saberia dizê-lo melhor.

segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010

Estrela Cintilante (isto soa tão mal)

Bright Star é belo. Aproxima-se de uma ideia de perfeição estética ingénua e idílica, o género de filme que a minha mãe havia de gostar. Tudo é sereno, as mulheres todas muito delicadas e femininas, as cores são todas suaves, os vestidos perfeitos como numa pintura, a música encantadora, os rostos bastante imperturbáveis, e mesmo perante a adversidade o sofrimento é elegante, recatado, contido. A realização está nesta sintonia – não arrisca nada. É compreensível que se sinta que este é um filme sem sal, pouco mais que poesia, mas não num sentido propriamente lisongeiro. Aquela poesia que pouco mais é que uma demanda daquilo que, numa perspectiva tradicional e conservadora, se considera ser a beleza. Falta ao filme fogo, carne. Porque se trata aqui do primeiro amor e o primeiro amor é também desvario, intensidade, coisa que queima, que desalinha, e isso também faz parte da sua poesia. Aquilo que falta a Bright Star é o lado negro, animal, instintivo e pouco óbvio que fez de O Piano uma obra-prima. Apesar de tudo este não é filme para se menosprezar. Existe um cruzamento com a literatura – a poesia de John Keats - que é interessante e que impregna toda a película. Por outro lado, e apesar de a interpretação de Abbie Cornish deixar a desejar nas partes mais exigentes a nível dramático (veja-se a cena final), ela consegue fazer-nos lembrar o que é sentir aquela ansiedade obsessiva por alguém, o que é não haver mais mundo para além da pessoa que se ama e isso parece-me um grande mérito do filme. Bright Star é todo primavera e sensibilidade: não é improvável que, quem esteja nesse mood, saia da sala de cinema comovido.
[texto publicado aqui]

domingo, 24 de Janeiro de 2010

Ponto de espadana

E de repente sentes-te muito cansado. Sentes que precisas de parar e ficar só contigo mas não podes parar. De repente precisavas de um mês sem ir trabalhar ou coisa que o valha, precisavas de férias, precisavas de pensar na tua vida, precisavas de não pensar em nada, precisavas de parar só. Só isso, parar. Precisavas de não ter horários e poder ir refrescar a cabeça para qualquer lugar. Precisavas de ventilar a cabeça e fazer circular por lá correntes de ar. Mas não podes. Tens horários para cumprir, nove horas por dia no mesmo lugar, com as mesmas pessoas, a fazer a mesma coisa que fazes desde há largos meses, sentes-te a mirrar um bocado, sentes-te saturado mas não podes fazer nada. Há que aguentar. Mais nada: aguentar. Tens um contrato ao qual não podes falhar, precisas de viver, precisas de pagar contas, dependes de coisas, circunstâncias, pessoas. Começas a sentir-te preso. O trabalho foi-te sempre liberdade porque te permite coisas concretas: estar ocupado, sentires-te válido, ter dinheiro para viver, achar que estás a percorrer um caminho qualquer, eventualmente fazer amigos. O trabalho permite-te dignidade. Mas depois há uma altura, um dia, uma fase em que precisavas de sair da tua "pequena aldeia gaulesa" e apanhar ar no focinho e não podes. É uma questão higiénica na verdade. É que o ar satura quando não é renovado. O que é que podes dar aos outros quando não sais do ponto de espadana? E começas a cogitar contigo. Vêm-te à cabeça expressões como opressão ou entre a espada e a parede e queres afastá-las de ti mas elas teimam em sobrevoar-te os miolos tipo abutres. "Reduz as necessidades se queres passar bem" diz o Palma. E é tão verdade. Precisavas de ser dono da tua vida, poder decidir. Habituaste-te a fazer o que te apetecia. Quero trabalhar nisto. Já não quero trabalhar nisto, quero antes aquilo. Quero estudar isto. Não me apetece fazer isto agora, faço depois, faço para ao ano. Quero ir viver não sei para onde. Já não quero, agora faço as malas e vou antes para o outro lado. Quero ir viver não sei com quem. Vou mudar de casa. Estou farta destas pessoas, vou conhecer pessoas novas. Já não pertenço aqui, vou mas é fazer antes a vida para acolá, que ali é que me apetece estar. Agora estou farta deste ambiente, sinto necessidade não sei de quê e lá vou eu em busca disso. Sempre houve constrangimentos como é óbvio mas ías fazendo como querias, sempre quiseste ser tu a decidir, ter essa independência, essa autonomia, fazer por ti. Mas agora não podes, agora são forças ocultas, como dizia o outro, que te prendem, que decidem por ti. Não podes simplesmente pôr-te a andar. Tens que aguentar. Tens que te aguentar. Tem que ser. E férias só lá para Agosto, vinte e não sei quantos dias contados. Até lá aguenta-te.

sexta-feira, 22 de Janeiro de 2010

Um profeta






Acontece-me frequentemente. Não conseguir produzir discurso sobre as coisas e os assuntos que mais me tocam, que são importantes ou grandiosos do meu ponto de vista. Envergonham-se-me as palavras, como se não me sentisse à altura da coisa. Ataca-me a preguiça ante o esforço grande que antevejo ser necessário para produzir umas palavras que façam, minimamente jus, ao assunto em questão. Receio bem que o problema central seja a preguiça. Maldito pecado capital. É por esta razão que o próximo filme acerca do qual vou escrever será provavelmente o Bright Star da Jane Campion, do qual gostei, em vez de escrever sobre Um Profeta do Jacques Audiard, que me encheu verdadeiramente as medidas. É imperdível. Tenho também de acrescentar que Tahar Rahim, o actor principal, para além de um grande actor, é também uma bela criatura.

quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010

O sítio das coisas selvagens


O novo filme de Spike Jonze reuniu um consenso pré-visionamento que me pareceu pouco habitual. Teríamos ante nós um casamento supostamente feliz entre um realizador peculiar e um dos mais amados clássicos da literatura infantil. Mesmo os corações mais empedernidos permitiram-se, em face desta película, a esta coisa de ter sentimentos e, vejam só, celebrá-lo.
O Sítio explora a complexidade emocional da infância, tratando o tema com uma sensibilidade que nem os manuais de psicologia infantil nem os milhentos artigos sobre o tema com que somos bombardeados amiúde, conseguem abarcar. Isto é louvável.
Mas.
O Sítio parece-me um filme de redenção. Uma espécie de redenção cinematográfica dos adultos no que diz respeito ao modo infantilizante e moralista como a infância é habitualmente tratada na literatura e outras artes. Mas isto revela-se pesado: o filme tem um ritmo que aborrece, é arrastado nos seus diálogos carregados de sentidos e coisas freudianas. A estética do filme pretende pôr-se em conformidade com o estado de espírito do menino que oscila entre o triste e o zangado com um mundo que, a dada altura, lhe é hostil. Mas a coerência não salva o filme de se tornar sombrio, antes pelo contrário. A nível narrativo a coisa também está meio desconchavada. A partir do momento em que desembarca na ilha, o miúdo anda por ali, aparentemente desorientado, numa estadia que oscila entre gravidade densa dos diálogos profundos que tem com os monstros e o delírio libertador das brincadeiras permitidas no sítio onde é suposto as coisas serem mesmo assim – selvagens. Não se encontra um fio condutor qualquer entre as cenas que se vão desenrolando sendo que a sequência do que vemos parece algo arbitrária. Concerteza que há cenas bem conseguidas ao longo do filme – as cenas dos uivos à beira dos penhascos, do enorme abrigo que todos constroem ou do diálogo que tem lugar quando o miúdo está no meio da pilha dos corpos dos monstros – mas isso não chega para tornar o todo consistente. E sim, já sabemos que isto de ser criança é coisa de fôlego, implica sofrimento e exige a maior das capacidades de encaixe. Não precisamos é de tanta filosofia a sublinhá-lo.
[texto publicado aqui]

Ele há lá coisas



Pode ser a maior concentração de lugares-comuns que já se viu em toda a história do cinema. Pode ter um argumento e interpretações abaixo-de-cão, como dizia o outro. Pode ser gerido à lei do bícepe. Pode até ter um ventríloquo como protagonista. Mas não é que tem uma bela banda-sonora?

(não toda a BS mas assim um belo punhado de músicas de grande qualidade)

quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010

Há coisas que, assim sem aviso, nos trespassam como setas






Eu quis te conhecer, mas tenho que aceitar
caberá ao nosso amor o eterno ou o não dá
pode ser cruel a eternidade
eu ando em frente por sentir vontade

Eu quis te convencer, mas chega de insistir
caberá ao nosso amor o que há de vir
pode ser a eternidade má
caminho em frente pra sentir saudade

Paper clips and crayons in my bed
everybody thinks that I'm sad
I take my ride in melodies and bees and birds
will hear my words
will be both us and you and them together
I can forget about myself trying to be everybody else
I feel allright that we can go awayand please my day
I'll let you stay with me if you surrender

terça-feira, 19 de Janeiro de 2010

Cãezinhos amestrados

Nunca gostei de escolas primárias. Nunca. Lembro-me perfeitamente do cheiro da primeira escola primária em que entrei, com cinco anos, absolutamente nojento. Assim um odor enjoativo de comida cozida, de chão encerado, de grande concentração de corpos num espaço sem ventilação (um pouco como nos autocarros da Carris em pleno inverno), de suor e de merda. Nunca entrei em wcs que cheirassem tão mal como os da escola, na infância - quase latrinas, todas brancas, sem trincos, nem piaçabas, nem tampos nas sanitas. Um toalha-trapo imunda para as mãos de todos. Muitas vezes nem havia papel. Lembro-me da repugnância que senti ao entrar em tal lugar. Foi sensação que se esbateu com o tempo mas nunca se foi de todo. A escola senti-a sempre uma semi-prisão onde se gritava muito e se cumpriam demasiadas regras estúpidas. A escola primária presta-se à concentração de muita mulherzinha histérica, valha-nos deus. Lembro-me das auxiliares a alimentarem aqueles que eram mais lentos a comer, ou "mais difíceis", como se faz com os patos para o foie-gras. É das imagens mais violentas que guardo comigo. As crianças, algumas em lágrimas já, sem capacidade de mastigar a refeição ao ritmo requerido (quanto mais engoli-la), a babarem-se todas e aquelas putas a continuarem a enfiar para lá alimento como se o mundo acabasse nesse momento. Recordo o chão da cantina conspurcado, sebento por debaixo das mesas, para onde os miúdos atiravam mãos cheias de comida para não terem que a engolir, ou só porque sim. Tínhamos que nos adaptar ao cheiro. Às regrazinhas. Dizer Sim, professora, recitar a tabuada em cima de estrado de madeira, brincar num espaço muito pequeno em forma de quadrado no recreio, para que a fulanas nos tivessem sempre debaixo de olho. Não foi especialmente criativo este período de aprendizagem, nem tampouco minimamente personalizado. Já não nos batiam, valha-nos isso. À excepção de uma delas que distribuía "lapadas" a torto e a direito (como ela dizia) e puxava orelhas aos mal-comportados. Um demónio de histeria, essa mulher. Era a Dóna Léna. Oh Lénaaaaaaaaaa!...., chamavam-na. E ela vinha, gorda, muito corada e de pele luzidia como um porquinho, com os olhos sempre esborratados de sombra azul nas palpebras superiores e um chocalhar de pulseiras nos braços, pronta a distribuir uns tabefes a quem não andasse na linha ou não lhe mostrasse os dentes. Paradoxalmente, e apesar de toda aquela frangalheira, até se conseguia descortinar ali um rosto bonito. Anafado e esborratado mas bonito. Mas até as professoras usavam aquelas batas aos quadrados, horrorosas, com uma bola de tecido-de-côr cosida a meio e com um zip, para lá guardarmos coisas. Eu, estranhamente, não tenho ideia de desgostar da bata, acho que a tolerava bem. Ficava-lhes era mal a elas, às professoras. Dava-lhes um ar de generalas de gosto duvidoso e estupidamente infantil.

Eu gostava de desenhar e pintar. E de picotar. Também gostava de cantar. Uma vez por semana tínhamos coro. Vinha uma mulher que tocava piano e nós, em filinhas muito direitas, cantavamos o hino nacional, entre outras canções. E gostava muito dos teatros das festas de natal. Muito corada, lá recitava tudo o que tinha decorado -rimas, invariavelmente - e davam-me sempre o maior papel, porque era o que tinha mais texto para decorar. E também porque eu era a filha do dótor, claro. E se o dótor punha o pé na escola, emudecia tudo de espanto, respeitinho e subserviência. Lembro-me dos lanches. Era sempre leite, quente, e às vezes com nata. Todos se enojavam perante a nata e elas, vá lá, retiravam-na. Se elas estivessem distraídas, as criaturinhas atiravam a nata à cabeça de algum. E depois comíamos papo-secos. Com manteiga ou marmelada. Eu escolhia sempre a marmelada. Porque era mais doce mas sobretudo porque a manteiga era às carradas e sabia a ranço. Às vezes, para variar, em vez do papo-seco, a meio da manhã distribuíam-nos bolachas. Umas bolachas que ainda hoje adoro - bolachas maria de ouro. Era uma raridade mas acontecia. Eram lanches criativos, portanto.
Quando as aulas acabavam, íamos para uma sala, onde estávamos com uma educadora, e tínhamos o resto do tempo livre. Nessa época, eu era sempre das últimas a ir-me embora, quando já estava num ponto de saturação de espera e de ali estar mas - pelo menos - podíamos fazer, brincar ao que nos apetecesse, tínhamos o tempo por nossa conta. Brincávamos ao lenço, ao rei-manda, ao bate-o-pé, ao macaquinho do chinês. Brincávamos com as barbies se as levássemos. É sobretudo nisto que difere a escola daquela época da de hoje. Não no cheiro. Não nos gritos. Não nas regrazinhas. É que hoje as crianças não têm tempo para brincar. Não têm tempo para ser crianças. Não conhecem os pais, nem os pais os conhecem. Continuam a ser tratados como patos de foie-gras, mas agora com carga horária alargada. Full-time job, das 9h às 17h30. Algumas das crianças até às 19h e consta que os pais ainda se queixam por não poderem deixá-los por mais tempo. É criminoso tentar manter uma criança sentada às cinco da tarde e esperar que ela seja dócil e obediente e ainda retenha conhecimentos. Fazer a chamada, esperar que estejam em silêncio e se não estiverem, gritar. Gritar muito. Ensinam-nos hoje em dia que há que gritar senão não fazemos nada deles. Abrir-lhes a boca como ao pato e enfiar para lá conhecimentos. E depois temos máquinas descompensadas mas capazes de debitar e/ou cãezinhos amestrados.

segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010

O que é que a tua câmara capta?


Não deixa de ser um grande exercício de estilo em modo 60's portrait.
Um Homem que não se interesse pelos problemas públicos é para nós não apenas perigoso mas inútil.
Péricles

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