Nunca na minha vida imaginei que fosse tanto. Toda a gente vos diz o mesmo mas só vão perceber a verdadeira dimensão da coisa quando puserem os olhinhos nisto. São milhões de bicicletas por toda a cidade. É por isto que os portugueses que vivem certo tempo na Holanda, chegam a Portugal todos freaks do ciclismo. Se bem que... isto não é bem ciclismo. Ciclismo é o Joaquim Agostinho, calções de licra, a volta à França, btt na serra de sintra, capacetes na cabeça, suor e corpos secos inclinados sobre uma peça de ferro e duas rodas. Isto aqui é outra coisa e o único que tem em comum com o que acabei de descrever são as duas rodas. Nada mais.
Em primeiro lugar as pessoas andam direitas nas bicicletas, porque aqui elas são feitas de forma a que a pessoa fique com a coluna na vertical. E isso faz toda uma diferença. Deixamos de parecer o Zé Manel a lutar para vencer o campeonato de ciclocrosse para passarmos a ser uma pessoa-normal-em-cima-de-uma-bicicleta. Depois, NINGUÉM usa fato-de-treino nem calças de licra para andar de bicicleta. As pessoas não têm um traje definido para ela, vestem tudo, inclindo fatos e talleures, saias e saltos-altos. E há quem use batom e pinte as unhas. A elegância das pessoas a pedalar é qualquer coisa de impensável antes de ser visto. Aqui viajar de carro é para os parvos. Para as famílias um carro não é prioritário. Uma bicicleta para cada um, sim.
Na Holanda a bicicleta é um meio de transporte de seu pleno direito - a bandeira bem podia ter apenas duas rodas unidas por uma estaca - e seria bem mais realista. Um meio de transporte que leva tudo e vai a todo o lado. Leva tudo: a própria da pessoa que a vai a pedalar, mais o portátil, mais sacos de compras, um ou mais filhos sentados na sua cadeirinha ou no cesto das compras, um ou mais cães nesse mesmo local, alguma caixa com um móvel que se foi comprar de fugida ao Ikea e passageiros. Sim, passageiros, porque aqui há táxis-bicicleta. Ou seja um fulano dá à perna para que outros dois ou três apreciem a paisagem no assento que o velocípede tem atrelado. Vai a todo o lado: qualquer lugar que se preze tem estacionamento para bicicletas e, neles, aglomeram-se, no mínimo, dezenas delas. E qualquer lugar que se preze é tipo: todas as ruas, à porta das lojas e de todos os organismos e entidades, locais de lazer ou burocracia, trabalho, escolas, estações, casas, prédios. E mesmo que não tenha - aqui ninguém está de modas. Prende-se o veículo a qualquer poste ou corrimão. Na minha rua, tal como em tantas outras, é difícil encontrar lugar para estacioná-la. A dita está em TODO o lado e só os pernetas é que não andam - e mesmo esses, com o advento da prótese, não se ficam. Há no centro da cidade um parque de estacionamento só para elas e diz que vão construir outro porque aquele não chega (tem três patamares mas está à pinha). O r/c dos prédios têm garagens vazias de carros mas não cabe lá nem mais uma agulha. São centenas e centenas de bicicletas de todas as formas, cores e feitios. Artilhadas com tudo e mais alguma coisa, incluíndo viseiras por causa do vento, assentos em pêlo por causa do frio e do kuduro (ahaha, sempre quis fazer esta piada), cestos e malas de todos os tamanhos possíveis. E toda a gente pedala as geringonças, mulheres, homens, híbridos, atléticos, estropiados, ricos, pobres, bem e mal apessoados, calmos, apressados, dos mais novos aos mais velhos. E os de cabelo branco não se desculpam com a idade para se imobilizarem. Pedalam como todos os outros.
Também se vê gente a fazer de tudo em cima do veículo. Falar ao telemóvel, comer, escrever mensagens, fumar, tirar fotografias, conversar com o parceiro do lado (aqui há muito o hábito de se andar aos pares).
Quando se vem pela primeira vez à Holanda pensa-se, não é possível. Podia ter sido o Tim Burton a magicar, para um dos seus filmes inverosímeis. A Holanda é um país plano e essa é uma grande dádiva a aproveitar.
Que vês da tua janela, Pipoco?
Há 15 minutos


:) então e para quando uma foto da tua pasteleira?
ResponderEliminarPasteleira é um termo tão old-school! :)
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