Hoje apercebi-me que todos os dias tenho encontrado cabelos brancos dispersos na minha melena de rato castanha-escura. Não gostei. Tenho vinte e sete anos e não me apetece ainda ter cabelos brancos (algum dia apetecerá?). O tempo passa muito depressa. Ainda ontem tinha dezoito (mas nem por isso mais cabelo) e depois vinte e um e dava-me jeito ter sabido umas coisas mais nessa altura (mas isso eu não podia saber). Os dias passam rápido. Mas as coisas demoram muito a acontecer. Tudo o que é importante demora sempre muito a acontecer. Encontrar uma casa melhor e mais barata. Conseguir um trabalho melhor. Ganhar mais. Encontrar um homem decente. E enquanto esperamos, o tempo a passar. Esperar que a manhã chegue (e o intervalo do trabalho) para ligar para mais uma série de anúncios de imóveis. Espera-se pela resposta a mais uma dezena de cartas de apresentação. Espera-se enquanto se trabalha e trabalha-se enquanto se espera que um dia alguém se lembre de nos reconhecer o empenho. Procura-se e espera-se, espera-se e procura-se um homem, aquele homem.Cuja extinção se receia mas os filmes insistem que existe. A vida passa tão rápido e nós sempre em espera. De um telefonema, um e-mail, uma palavra, um olhar. Toda a gente conhecida a dizer, não desistas, vai chegar. E os novos gurus a evangelizar-nos na ideia do carpe diem e sugar o tutano da vida e tal. E espera-se. E trabalha-se. E espera-se. E eu hoje tenho mais um cabelo branco a provar que ele passa. Mesmo que eu não queira. Mesmo que me esforce por uma vida bem vivida. Mesmo que não fique nada por dizer. E eu a sentir-me a mesma miúda cheia de coisas. Com tudo por fazer.
sou claramente uma mulher de obsessões
Há 3 minutos


Que lindo este teu texto, tão sincero... e cru. É lindo porque é... nu.
ResponderEliminarEstava a ler e pensei era giro ter uma foto a seguir,e pensei no cabelo branco,mas a escolha foi bem mais acertada.