É incrível como se aprende a viver sem sol num país como a Holanda. E isso faz-me pensar que, se uma latina como eu, consegue viver com tão pouca luz, tem que haver boas razões que compensem essa lacuna.
E quanto a mim, de entre as várias razões que contribuem para isto, o advento bicicleta muda tudo desde logo. Nunca pensei que o impacto dela no estilo de vida fosse tão grande. Para alguém que aprecia um modo de vida descontraído, não há como viver numa cidade onde nos podemos deslocar para qualquer lado de bicicleta. Ora vejamos: stress relativamente a trânsito: nenhum. Aborrecimento relativamente a trânsito: nenhum. Nervos relativamente a estacionamento: nenhuns. Desgaste relativamente a poluição sonora: nenhum. Despesa relativamente a transportes: nenhuma. Prazer relativo à viagem em si: todo. Benefício para a saúde: todo. Benefício para o meio-ambiente: todo.
A sério: para alguém que não suporta estar parado, ter que esperar por transportes públicos é um suplício diário. Deve ser a coisa que mais ODEIO quando tenho que fazê-lo obrigatoriamente todos os dias. Adoro estar sempre em movimento e sentir que controlo a minha vida. Ter que depender de horários que me são externos põe-me fora de mim. Aqui, preparo-me, pego na bicla e ala! a viagem só depende de mim. Outra coisa que detesto: estar encafuada num sítio fechado e mal-cheiroso (hello Carris, this one is for you, babe) com um espaço diminuto à disposição, comprimida pela massa de gente mal-encarada (e com geral tendência a desconhecer desodorizantes e elixir dental) que viaja ao meu redor. É um facto: não me dou bem em multidões, exceptuando circunstâncias muito excepcionais. Podiam argumentar: se tiveres um carro essas questões estão resolvidas. Ora, um carro é, em primeiro lugar, dispendioso. Aliás, tendo em conta os ordenados portugueses, eu diria mesmo, incomportável. Gastar 200 euros/mês em gasolina, mais outro tanto na prestação do dito, mais sei lá quanto em seguros etc e tal não está propriamente na minha lista de prioridades. A quantidade de coisas que me fazem muito feliz no dia-a-dia e de que teria de me privar à custa disso (cinema por exemplo, já para não falar em viajar) faz com que um carro nunca tenha sido um objectivo de vida.
'Maneiras que, em chegando a um sítio no qual todo e qualquer indivíduo pedala para se deslocar, me senti contente como um passarinho. Recordo-me de, há uns anos valentes, um amigo torriense me descrever, fascinado, a sensação de se deslocar pela cidade de bicicleta, no meio de um grande grupo de amigos de nacionalidades diferentes (alguns deles já bêbedos provavelmente). Só consegui perceber aquilo que ele queria transmitir há coisa de uma semana atrás, quando finalmente o experienciei, e senti que, de alguma forma, era como se eu estivesse a experimentar uma joie de vivre semelhante àquela que nos recordamos de ter sentido na infância ou adolescência. Mesmo eu tenho dificuldades em descrever o divertido que é sair de casa à noite com um grupo de amigos para ir a um qualquer bar ou discoteca pedalando, a par de mais uns quantos velocípedes guiados por várias criaturas encapuzadas e enluvadas. O frio assim obriga e, na verdade, o ar gelado da noite no focinho deve ser das coisas mais revigorantes que já experimentei.
A cidade ganha uma coolness difícil de igualar (dizem que em Copenhaga se passa a mesma coisa). Ao lado de Lisboa, Amsterdão é uma cidade de província, no que ao stress diz respeito. Não há filas de trânsito automóvel, há-as de bicicletas, coisa inusitada. O colorido de cada pessoa em cima delas mais a parafernália de acessórios e coisas que cada um transporta é digno de ser observado, digo-vos. A bicicleta é um meio de transporte de pleno direito, inclusivamente nas normas que tem de cumprir. Nada de viajar sem luzes ou reflectores por exemplo. Ontem fui abordada por um polícia que parecia querer fuzilar-me por eu estar a andar numa via para bicicletas (há-as em toda a cidade) mas no sentido contrário (porque momentaneamente me dava mais jeito estar daquele lado do passeio). What are you doing?! gritava-me indignado. E eu, encolhida e culpada, sorry, sorry, lá fui para a margem que me competia, antes que ele se lembrasse de esticar o bloco das multas. Ah, e os ciclistas também sopram no balão, só para advertir.
Acho os holandeses bastante fechados e sisudos, de um modo geral. Mas se falares a língua deles, ou fizeres um esforço, as coisas são logo um bocadinho diferentes; é universal. À parte do exemplo do condutor de autocarro do primeiro dia, e de outras pequenas coisas, tenho que fazer um mea culpa e admitir que tenho tido uma boa experiência até agora. Tenho recebido sorrisos, disponibilidade e uma espécie de afabilidade tímida sempre que peço direcções na rua ou ajuda numa repartição. Uma coisa é certa: a descontracção com que se vive aqui é admirável, sobretudo para alguém habituado aos pesados formalismos portugueses. As pessoas apreciam a qualidade de vida. A cidade está repleta de parques verdes, por sua vez repletos de pessoas que circulam, fazem exercício, ou passeiam os seus cães (há-os de raças diversas - alguns tão peculiares que se tornam cómicos). Aliás aqui toda a gente parece ir correr no parque ou ginasticar no ginásio. Eu própria tenho corrido todos os dias - os parques convidam a isso e o tempo cinzento também (há que haver estratégias para aumentar a serotonina). No primeiro dia em que fui correr ao Vondelpark (julgo que é o maior da cidade) tencionava encontrar-me com um grupo de gente que corre junta. Abordei vários e nenhum era o que eu procurava. São imensos. Há gatos em montes de lojas, cafés e pubs (sim, os ratos, mas ainda não vi nenhum) e os cães podem entrar em todo o lado, tal como em França. Os animais humanizam os lugares - é um paradoxo giro - e dão-lhes um conforto que de outra qualquer maneira seria impossível.
Por outro lado esta parece ser a cidade mais segura em que já vivi. As prostitutas estão nas montras. As drogas (ainda que leves) nas coffeeshops. E as ruas ficam mais livres para tudo o resto. O delito mais frequente por aqui (atenção, portugueses, há estatísticas que os comprovam) é o roubo de bicicletas. Portanto é oficial: vivo num país de pilha-galinhas. Aquilo que me dizem é que é difícil sair de Amesterdão por estas razões e as outras de que não falei. Veremos se para mim o será também.
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Comecei por dançar flamenco. Depois formei-me em teatro. Trabalhei profissionalmente em teatro mas também num cinema e em sushi (não sem ter experimentado o call-center). Tirei um curso profissional de jornalismo. Ultimamente tenho-me dedicado à moda. Vivi e trabalhei em vários cantos do país e agora vivo fora dele (I amsterdam). Dos mil-e-um-interesses, vou-me focando a par e passo no que mais me realiza (embora goste de me perder por aí). "Os de sempre" continuarão a acompanhar-me nesta jornada e, quiçá, companheiros novos também. Este blogue serve-me para arrumar a cabeça e comunicar com pessoas de quem gosto.
[Se quiserem contactar-me, podem fazê-lo para este e-mail:
asiul.snitram@gmail.com]
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Eu disse que ias gostar =P
ResponderEliminarDa cidade, atenção! E viver aí é completamente diferente de quando se visita a cidade ... Aproveita ao máximo! =))
[andar de bicicleta é que não é mesmo o meu forte. dói-me o cu xD]
**
QUE BOM! gostei tanto de ler isto! Amesterdão é mesmo assim... lindo.
ResponderEliminarApetece-me cantar "what the hell am I doing here? I don't belong here"...
sintonia: :) eu cá sempre adorei andar de bicla por isso já trazia uma vantagem, mas tens razão, o cu tem que se habituar! hehehe
ResponderEliminarmeg: isso foi o que sempre senti, sempre. às vezes até fico parva a pensar por que é que não vim mais cedo. mas "isso you don't belong there" tens bom remédio. o que eu mais gostaria é ter os meus amigos ao pé de mim ;)